Domingo, Março 15, 2009

Viva la muerte!

Finalmente mergulhei no fantástico universo dos downloads de filmes e séries e gravação de dvds com os produtos. Estou descobrindo às duras penas o resultado da minha desorganização digital - como filmes independentes largados no hd por séculos sem legendas.

A melhor aquisição por hora são as duas temporadas de Dead Like Me.

Quinta-feira, Março 12, 2009

Se eu sei o que quero?

Quero alguém que me ame mesmo com meus apesares. Um cara. Sujeito de si, que balance todo diante de mim. Que me faça balançar também e pensar bobagens e ter delírios sensuais. Que nosso encontro seja um frenesi de risos e carinhos. E que meu beijo lhe seja doce.

Quero inteiro, nada pela metade. Para comprarmos juntos uma nau e singrar por essa aventura cheia de ventos revoltos e ondas traiçoeiras da vida. Que me desafie e desafie a si mesmo. Corajoso, não sem medos.

Quero perto. Semelhante a mim, que me complete e também seja incompleto. Que formemos um em dois.

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

avalanche e desmoronamento

Tive um papo hoje com um amigo, sobre homens e mulheres. Vinha para casa decidida a escrever mais uma arenga relacionada à guerra dos sexos. Me inserir mais uma vez nessa feijoada de clichês. Só que hoje tive um dia daqueles em que os acontecimentos atacam em bando. Más notícias de todos os tamanhos - quer dizer, não houve nenhuma exatamente colossal, mas P, M, G, GG e XXG estavam lá.

Então fiquei totalmente sem moral para dizer nada. Uma bigorna caiu em minha cabeça. Ainda que não sinta desespero ou vontade de chorar, tenho consciência de que a situação está feia de várias maneiras. Nada que mate, mas certamente arranha. No trabalho, na vida pessoal. O caos desafiando o raio de otimismo que me acertou no último mês.

Mas o tempo todo é assim mesmo, né? A gente não pode se dar ao luxo de acostumar com nada. Persistência é uma luta diária. Precisa de fibra, dentes cerrados, tônus no abdome. Adrenalina.

pausa para um suspiro

A todo momento é preciso mudar de plano. Corrigir as velas e ser maleável para não perder o prumo nem todo o rumo. É preciso desenhar metas com traços leves, porque a borracha da vida apaga, por isso é melhor não deixar marcas que enfeiam nosso papel.

Tudo isso é para me convencer de que as coisas não são tão ruins assim. Que tudo está sob meu controle e pode melhorar. Que o melhor conselho agora é um chá de camomila.

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

Na maré de Calcanhoto


Tirei a hora para desfrutar minha solidão.
Indelével, inefável, infalível solidão.

saia dessa vida de migalhas
desses homens que te tratam
como um vento que passou


No último domingo, pela primeira vez fui assistir a um show da Adriana Calcanhoto, cantora e compositora que admiro, mas não conheço bem. Ela passou novamente por aqui em turnê de seu último álbum - Maré. Meio que pensei em desistir de última hora, mas tinha de ir entregar os convites de uma colega, portanto não teve jeito. Final de domingo, sozinha, fui lá. Sentei no meio da multidão e nem percebi quando fui tomada pelo encanto.

Ano passado, de presente de aniversário, ganhei de minha mãe o Maré. Depois de ler entusiasmados comentários na imprensa, me decepcionei com o disco. Achei mais do mesmo da Adriana Calcanhoto. Ouvi seguidamente umas duas, três vezes tentando gostar, não consegui. Fiquei na minha e guardei o cd meio esquecido. Até que nesse domingo, tudo fez sentido.

- Ela me despedaçou cantando "Eu sei que vou te amar"
- Nossa! Não sabia que vc gostava tanto dessa música
- Nem eu

O cenário era azul com desenhos que remetiam à vida marinha. Uma concha gigante aparecia iluminada em primeiro plano no palco. Ela, com um enorme vestido vermelho e coberta por um xale na mesma cor, era um coração discretamente pulsante no centro do palco. Arrebatador.

À medida que foi desfilando o repertório com sua voz delicada, Calcanhoto embalava a multidão sentada em transe. Muitos casais de moças e casais de opostos tinham sua hora mágica. Um show de romantismo ao extremo sem pieguice nenhuma. Me descobri completamente apaixonada, mas sem nenhum objeto.

a uma hora dessas
por onde passará seu pensamento

por dentro da minha saia

ou pelo firmamento?


Somente depois é que fui descobrir que as músicas que mais me tocaram, que mais falaram direto para mim, são justamente as presentes no seu mais novo trabalho, que está inteirinho lá, claro. Onde eu estava com a cabeça, meu deus? Ouço hoje o cd como quem ouve pela primeira vez. Ou pela segunda, logo após a Descoberta.

Adriana mostra que para ter um pleno domínio do público e do palco não é preciso ser um furacão enérgico. Com humor inteligente, sua simpatia comedida, que pode ser confundida com uma seriedade de timidez, contou causos do meio artístico e apresentou as novas músicas. Tudo isso lá, sentadinha no seu banco, sem alterar o tom de voz ou tirar o pé do chão. Linda como uma boneca russa.

amarrado num mastro
tapando as orelhas

eu resisti

ao encanto das sereias
eu não ouvi

o canto das sereias

E aí ela cantou também as músicas mais antigas, acompanhada pelo coro fiel de milhares de vozes, a quem ela enganava com uma interpretação de compasso ligeiramente diverso do registro original. Outra coisa que achei genial, porque pra mim um show é para você ouvir o artista - falando, explorando possibilidades na música, brincando com melodia e letra - caso contrário, melhor seria ficar em casa e escutar o cd ou mp3.

Esse show abriu uma janela em mim, provocou novidades e vontades. Pensei a sério sobre coisas que jamais imaginei que pudessem ser acordadas através de música, como partir da segurança da cidade que conheci a vida toda - e o inverno no leblon é quase glacial.

E mergulhei por completo na delícia das letras, que talvez pela primeira vez tenha decifrado, compreendido além da textura sonora, das ondas do rádio, do folhetim televisivo. Ali, átomo em meio à onda humana na Concha, desvelou-se uma identificação profunda, da qual até então tinha mera suspeita.

Sexta-feira, Novembro 21, 2008

quebrando o silêncio


Depois de um bom tempo sem dar o ar da graça, o sonho mais bizarro que já tive em todos os tempos me trouxe uma necessidade premente de compartilhá-lo com vocês. Sonhei que uma girafa macho se apaixonava por mim. Era o último espécime da Girafa Brasileira, prestes a ser extinto porque não existiam mais fêmeas da espécie. E então ele tentava me penetrar e começava a me perseguir com seus olhos dóceis e lânguidos de girafa. Era muito bizarro, até mesmo dentro do sonho.

Não, eu não correspondia aos sentimentos do bichinho.

Segunda-feira, Setembro 22, 2008

Ainda bem que não somos todos cegos


Soube que Fernando Meirelles estava filmando Ensaio sobre a cegueira quando um amigo me enviou o fascinante blog que contava os bastidores de todo processo de criação do filme. Li bastante, fiquei entusiasmada com a naturalidade com que o Meirelles contava o dia-a-dia das filmagens, lidando com atores brilhantes e situações curiosas e singelas que fazem parte de todo processo artístico. Criatividade aos borbotões, neuras pessoais dos envolvidos, desafios a vencer e contornar para realizar a obra que, por mais que tenha um diretorzão lá, mandando em tudo, é sempre um filho coletivo, com partes do suor de cada ator, cada técnico escolhido a dedo - guardadas as devidas proporções.

O tal blog fez brotar em mim o compromisso de, como poucas vezes, ler o livro antes de ver o filme acabado na tela, o que se tornou uma idéia ainda mais firme quando assisti ao vídeo do Saramago embargado de emoção na premiére, ao lado do diretor brasileiro. Aquilo me deixou comovida e com a certeza de que em breve estaria diante de uma obra interessantíssima. Eu já gosto do trabalho do Meirelles, saber que derreteu o coração do prêmio nobel com sua adaptação, então...

Ainda não conhecia Saramago e logo fiquei impressionada com sua escrita de pontuação ousada, sugerindo uma paciente velocidade, mais real que a própria vida. Mais do que isso, fui seduzida por suas imagens e a sinuosa sutileza com que dizia certas coisas, quase sem dizer. Revirava palavras e relia trechos, ora para maturar o entendimento, ora por pura incredulidade, ou então por graça ou puro deleite. Mesmo gostando muito, demorei de chegar até a última página do livro por minha habitual falta de disciplina e leseira. Tanto que o filme estreou e eu só fui acabar de ler duas horas antes de ir para a sessão, num belo domingo.

O resultado é uma obra de alta fidelidade e, ao mesmo tempo, extremamente autoral. A tal da "transcriação" funcionando como em poucas adaptações de literatura para o cinema. O espectador que conhece o livro enxerga a narrativa e o clima criado pelo escritor com perfeição, ao mesmo tempo em que está ali a assinatura de Meirelles, com seus cortes rápidos e uma fotografia que faz a platéia mergulhar no “mar de leite”.

A diferença nas opções de cada autor são perceptíveis, mas isso não faz com que uma obra fique devendo à outra. Senti que o filme tem uma atmosfera mais “limpa”, enquanto Saramago fez questão de carregar nas tintas da podridão em que mergulha a horda de animais cegos. Em outros momentos, o que a escrita ocultou, o cinema mostra, mas sem quebrar todo o mistério reservado às interpretações mais subjetivas. Cada uma lança mão da sofisticação dentro de sua própria linguagem. Saramago faz magia com as letras, Meirelles, com fotogramas.

Minha cultura literária é bem pouca, confesso, e por isso não tenho autores prediletos. Já minha cultura de cinema, como boa cria do século XX, é bem mais robusta, a ponto de me fazer reconhecer nomes queridos. De qualquer forma, não tenho exatamente estômago sensível e nem tudo me impressiona, mas esse “casamento” mexeu com meu chão. Acho que jamais tinha visto dar tão certo o encontro de nomes que admiro.

É para ver e rever a condição humana.

Altamente recomendável.

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

Feromônios e uma lâmpada incandescente

É tudo o que eu queria esta noite. Nas verdadeiras condições, me basta whiskey e a casa de um amigo. Confesso que, se estivesse mais confiante e menos bêbada (não que esteja muito), partiria para algum local. O post se inicia com a fala de uma mariposa.



Sou a primeira a dizer que saia de uma relação se ela não traz mais o conforto da felicidade. Velhos hábitos e paixões, na maioria das vezes, são coisas realmente difíceis de se arrancar. Só quem está de fora não percebe. Só quem está de dentro acha que é realmente impossível. O novo é sempre um abismo e uma ameaça, mas um desafio a perseguir.

Dói muito admitir reconhecer os signos, mas assumir a verdade é o bojo do começo de um novo caminho. Cada um sabe onde seu sapato aperta e nem sempre o melhor modelo é o mais adequado ao formato dos seus pés. Burrice é atender à promoção sem levar em conta o desconforto, porque as horas se passam em forma de bolhas descarnadas. Somente na própria pele é que a gente sabe quanto tempo leva para se formarem as cicatrizes. Seguir adiante também pode indicar um caminho espinhoso, a princípio, mas é sempre o melhor a fazer quando a outra opção é remoer o passado.

O que foi ficou está em outro tempo e, só depois do coma provocado por algum tipo de acidente, é que começam o presente e o futuro. Um brinde às cicatrizes! Elas falam: Viva as novas falhas. E os novos acertos.

Nesta noite, penso em Buenos Aires como uma amante voluptuosa. Estaria minha verdade nos seus braços? É a segunda (agora terceira) vez que menciono verdade entre estas palavras. O que persigo afinal? Buenos Aires e a confortável sensação de pertencimento em tantos anos...? Eu não falo como os outros daqui. Não me mexo como eles. Meu humor, meu sorriso é diferente. Até a pintura na minha pele. Imerso numa realidade, o sujeito não faz idéia de que em outro cenário pode haver outra noção de ser-felicidade. Será?

A batalha do momento é remover uma mancha. Onde? Prefiro ocultar e usar o alvejante sozinha. A partir do instante em que determinados amores deixam de funcionar, é preciso ver onde e como estancar as feridas. Expurgar o veneno e, muitas vezes, rumar em outra direção. Remendar não adianta. É conserto malfeito que esgarça e mostra a pele desnuda e frágil, a face mais pálida, aquela que a gente faz questão de guardar. Exposição, somente depois de baterias de confiabilidade. Pele frágil, de pouca melanina e sem calos. Pele nua, nua, nua.

Resolvi. Abrir mão é o começo de agarrar novidades. Às vezes só tira do conforto, noutras, o pedaço. Um dia a gente é rejeitado. Em outros, rejeição. Faz parte de um álbum de figuras plurais, em que temos o benefício de assumir diferentes papéis. São Jorge e Dragão.

Hoje, eu sou a Lua.